terça-feira, 18 de agosto de 2009

A MORTE DO CD E O CONSUMO DA MÚSICA

Por Anderson Nascimento

O futuro do consumo da música ninguém sabe qual vai ser. Alguns até tentam arriscar alguma previsão, mas a verdade é que dificilmente esse futuro já foi adivinhado por qualquer um que tenta descrevê-lo. Quando ouvimos falar em morte do Cd, clichê do momento, fica difícil entender esse conceito, já que é triste imaginar que a substituição do Cd terá como suplente os arquivos de músicas digitais, tecnologia mais nova em relação ao Cd.

Que já nos acostumamos a ouvir músicas em celular, computador, Ipod e aparelhos portáteis, não resta dúvida, mas imaginar que um álbum será vendido inteiramente em formato digital, relegando aos jpeg´s capas, ficha técnica e encartes, é desanimador. Dizer que a iminente volta do vinil preencherá completamente esse espaço também é sonhar demais, é pura utopia.

Não estou defendendo o Cd, mesmo porque esse tipo de mídia de distribuição nunca me encantou, desde que os maravilhosos LP´s com encartes e capas que eram verdadeiras obras de artes, foram abruptamente substituídos no Brasil pelos insossos disquinhos metalizados, o prazer de ouvir um álbum começou a ser cultuado por cada vez menos pessoas. Mas a questão aqui é que o formato físico mais popular nos dias de hoje não possui ainda um substituto.

Posso entrar na onda e arriscar também o meu palpite. Acredito em uma convivência "pacífica" entre os formatos, ao contrário da morte definitiva do Cd, como aconteceu, por exemplo, com a fita cassete. A expressiva venda de vinis na Europa e Estados Unidos, está respingando por aqui. Recentemente a Polysom, única fábrica de vinis da América Latina, foi comprada pelo dono da Deckdisc, e está sendo reformada para voltar a fabricar vinis no Brasil, derrubando o preço que se paga por um vinil importado hoje aqui na terrinha. Segundo o próprio dono da Polysom, a demanda por pedidos de fabricação de novos vinis estão indo de vento em popa, o que certamente aquecerá essa indústria por aqui. Já com relação ao Cd, acredito que ele ainda possui uma sobrevida por vários motivos, entre eles, o custo baixo na fabricação, a portabilidade e a popularidade dessa mídia, pois qualquer residência tem um player de cds. Quanto aos arquivos digitais, certamente o ponto a favor é a facilidade de carregar centenas de músicas em um dispositivo que cabe na palma da mão, por outro lado o que pesa contra é o esquecimento do conceito álbum, dando lugar ao conceito música.

Dessa forma, acredito que problemas como o desmoronamento nas vendagens de álbuns jamais será sanado. O que resta aos artistas e gravadoras é apostar no produto diferenciado, feito para fãs. Casos como esses já estão acontecendo há algum tempo. Só para exemplificar, alguns álbuns em vinil, como o novo do Bob Dylan "Together Through Life", vem com cd encartado na mesma embalagem, outros vem com uma senha para você fazer um download digital de forma legal, o novo do U2 "No Line on The Horizon", saiu com oito formatos diferentes para o ouvinte escolher e comprar a versão que mais lhe agrada.

Não quero parecer saudosista, nem entrar no (de)mérito da pirataria, mas o consumo de música por prazer e não como pano de fundo, deve ser feita em algum formato, e de preferência físico. Algo palpável e que dê a sensação de estar segurando uma obra de arte, algo que represente um momento na carreira de seu artista preferido, um objeto que você possa tocar e falar sobre ele. De que adianta ter a "discografia" de um artista em um aparelho portátil e não ser capaz de ao menos conhecer o nome de um dos álbuns, não saber de que período pertence uma determinada música, e apenas orgulhar-se por estar carregando todos os discos dos Beatles em mp3? A verdade é que a teorizada "morte do cd" sem uma substituição, no mínimo à altura, significaria assassinar também um pouquinho de uma das mais importantes formas de expressão da cultura: a Música.

Galeria de Opiniões - 01

4 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom o post, mas corrijo a sua colocação dizendo que mesmo em formato digital é possível saber as informações de nome do álbum, nome da música, data do álbum ou da música, autor, intérprete, compositor, gênero musicalver a capa, direitos de autor, endereço de site do artista, qualidade do arquivo gerado entre outras informação... claro que não estou comentando aqui o saudosismo, que é outra questão e de visão particular de cada.

Anderson Nascimento disse...

É verdade, em arquivos digitais podemos também ter informações sobre as músicas, mas acredito que ficaria muito difícil vinvular a ficha técnica completa da gravação, tipo quem tocou o que.

Obrigado pelo comentário e elogio.

Abraços,

Anderson

Carlos Alberto disse...

Achei excelente a matéria, mas em muitos casos ainda prefiro o bom e velho vinil. Nunca me esqueço quando vi aquele imenso álbum triplo ao vivo Isle of Wight / New York Rock Festival de 1970, e pus na vitrola a faixa com a alucinante I Can't Keep From Crying Sometimes, do Al Kooper, interpretada pelo Ten Years After. Alvin Lee tocou muitíssimo mais que em Woodstock, mas outro mérito da companhia foi que não houve nenhum corte nessa e nas outras faixas, deixando intactas as apresentações apoteóticas do Miles Davis, Mountain (Rock Festival), Jimi Hendrix...

Cara...algum tempo depois comprei o cd e dvd do evento, e a maior decepção: cd e dvd vieram com cortes lamentáveis, o TYA foi simplesmente fatiado ao meio, a apresentação perdeu muito da força e os solos foram editados pela metade. Mesma coisa em dvd. Moral da história: em vinil não aconteciam essas coisas! Isso, sem falar que os tons graves são bem mais destacados nas gravações em vinil e há mais ganho de resposta de som, fora a expectativa de você "ir acompanhando" a duração da música só em observar o deslizar suave da agulha no acetato, coisa que o cd priva você de sentir.

Como sou baixista, também curto mais os vinis, porque os graves, médios e agudos ficam mais proeminentes e o encarte, sleeve notes, fotos, enfim, fazem com que os velhos discos sejam como que livros, ao passo que, com algumas exceções ótimas, os cds, com toda a sua praticidade de transporte, pêso, etc., minimizam muito as informações.

Valeu! Abraços a todos, galera!

Carlos Bill, baixista, compositor.

Anderson Nascimento disse...

Carlos, também prefiro mil vezes o vinil, e até acho que essa "volta" do vinil e a "queda" nas vendas de cds pode fazer com que haja um equilíbrio nas vendagens de ambas as mídias. Talvez por questões de preço o cd ainda tenha alguma vantagem em relação ao cd.

Obrigado pelo comentário.

Abraços,

Anderson Nascimento